Esse texto surgiu como necessidade
de organizar minhas ideias acerca dos meus objetivos de vida. Ele resulta de
algumas pesquisas que fiz na internet, sobre pessoas que ajudam outras a
descobrirem seus propósitos, mais conhecidas como coaches. Como ressalva, gostaria de me afastar da ideia de que
somos predestinados a propósitos, como se eles não fossem escolhas que
fizéssemos, mas algo como qual nascemos. Segundo meu entendimento, eles são
formas de constituição e afirmação de subjetividades, portanto, formas de vida
e de resistência aos modos de produção do “eu”. Com esse texto acredito poder
tocar na superfície dos meus problemas de foco e ânimo e tentar, assim, abrir
alguma vereda para caminhos futuros.
Um dos vídeos a que assisti dizia
que devemos nos fazer algumas perguntas para descobrirmos nossos propósitos na
vida, a primeira delas sendo “quem sou eu?”. Eu não posso responder essa
pergunta, nem acho que ela possua uma resposta objetiva, além daquela que se
inscreve no nome próprio: Hafael. Escrevo o nome com H, grafia com a qual eu
substituí o desejo familiar pela afirmação da experiência singular de estar no
mundo, de “haver aí”. Realmente há alguns vídeos que admitem como resposta a
essa pergunta a aparente simplicidade do nome próprio, então me sinto
autorizado a respondê-la dessa forma.
A segunda pergunta dessa dinâmica é
“o que você faz?”, a qual também aparece como “em quê você é bom?” ou “o que
você poderia ensinar alguém agora?”. Essa pergunta, acredito eu, é muito
difícil de responder. Há muitas coisas que eu poderia dizer que eu faço: eu
canto, eu atuo, eu conto piadas, eu tenho um pensamento relativamente rápido.
Mas focando em minhas habilidades eu diria que possuo certa descrença em tudo,
um ceticismo amplo que me faz evitar termos universais, o que me torna uma
pessoa relativamente crítica. Eu tenho o hábito de me perguntar pelo
significado histórico das palavras, evitar essencialismos e recusar ontologias identitárias.
Na faculdade, por exemplo, eu sempre me interessei mais pelas pesquisas que
questionavam seus termos, sejam eles literários ou gramaticais, do que por
aquelas que se resignavam a usar os conceitos como instrumentos neutros de
classificação e julgamento. Foi essa perspectiva que me levou à trilogia da
suspeita: Freud, Nietzsche e Marx. Também acredito que foi essa perspectiva que
me fez me reconhecer tanto no pensamento de Foucault, a quem ainda devo minha
habilidade de efetivamente pensar tudo e qualquer coisa, não na sua
essencialidade, mas na sua historicidade. Obviamente essa não é uma reposta
objetiva, do tipo “eu faço bolos incríveis”, é apenas a resposta que eu tenho
pra essa pergunta. Até porque não há mesmo nada que eu faça exiguamente. A
próxima pergunta, contudo, pode me ajudar a especificar essa habilidade.
A terceira pergunta indaga “pra
quem eu faço o que eu faço?”. Essa foi a mais difícil de responder, mas por
livre associação eu cheguei à seguinte conclusão: para os que não se enquadram.
Durante toda a minha vida eu me senti alheio, deslocado, sem lugar. Quando eu
descobri que outros homens tiveram essa experiência e que muitos deles, ainda
assim, realizaram trabalhos significativos, eu tive acesso a uma possibilidade
de me desculpar por não atender aos requisitos do sucesso indicados pela
sociedade brasileira. Eu sempre admirei esses sujeitos que não comprometeram
sua visão de mundo, que não fizeram concessões à economia dos corpos e desejos
por meio dos quais nossa sociedade busca domesticar e docilizar o “cidadão”. Eu
sempre tive inveja desses que abdicam de tudo por sua arte, por suas crenças,
por seus desejos, ainda que por isso sejam considerados homens maus ou sem
caráter. Eu queria ajudar a esses que não têm coragem de assumirem a sua
existência infame, a sua vulgaridade, a sua completa ausência de idolatria pela
sociedade contemporânea. Esses homens são fruto dessa sociedade, sua infâmia é
resultado do julgamento social sobre suas vidas, sejam eles os judeus na
Alemanha de Hitler, os armênios da Iugoslávia, os homossexuais, as mulheres, os
negros, os índios, os refugiados. Mas também queria ajudar àqueles que,
prisioneiros da mesquinharia cultural a que são submetidos, rechaçam a
alteridade e se recolhem na paralisia mesmidade. Por um lado, portanto, eu
queria ajudar a fender o pensamento mediano para que esses seres não sejam
marginalizados pelas categorias identitárias do cidadão, do homem, do falante,
do bom, belo e verdadeiro, mas eles também são o instrumento por meio do qual
eu não me enclausuro em mim mesmo, mas abro minha vida e minha história ao
outro. Não consigo responder “a quem” objetivamente, mas acho que é um
indicativo dessa resposta.
A quarta pergunta é “o que eles
precisam?”. Muito difícil de responder, uma vez que acredito que a necessidade
dos infames depende dos dispositivos que os marginalizam. Grosso modo, eles
precisam de alguém que os ouça, que os veja, que não naturalize seu sofrimento,
que não considere que suas vidas precisem ser adequadas aos padrões sociais de
aceitabilidade. Talvez haja um imenso romantismo da minha parte, mas eu não sei
organizar minha vida sem esse senso de justiça, o que me fez interessar pela
política e sua relação com a arte. Esse é outro tópico importante na minha trajetória:
a relação com as artes. Mesmo não sendo um grande leitor ou mesmo um grande
espectador de museus, teatros e outros modos de produção artística, eu sempre
me conectei a esses homens que fazem da produção de sentido a única verdade
inerente ao homem. Em um tempo que as categorias parecem esgarçar-se e perderem
sua autoridade lógico-racional, me parece que a arte é o lugar em que a
experiência sensível recoloca mais uma vez o desafio sempre necessário de
sentir mais uma vez, experimentar mais uma vez, abrir-se ao mundo mais uma vez.
Não há lugar em que eu tenha me sentido mais em casa e tenha estado mais ciente
da minha função do que na arte-educação do Inhotim. Foi lá que eu realmente me
senti em casa. Foi lá que eu consegui organizar, de maneira até então inédita
pra mim, meus pensamentos.
Última pergunta: “o que eles ganham
com isso?”. Responderia com uma palavra: liberdade. Obviamente “liberdade” não significa
ausência de amarras – ser sujeito é, em larga medida, ser o agente e o paciente
dos múltiplos dispositivos que nos constituem –, mas saber quais são as suas
batalhas, reconhecer que a diversidade constitui o modo mais brilhante de se
estar em sociedade, que não há vida que possa ser substituída pelas bugingangas
que nos prometem a felicidade no mercado das vaidades contemporâneas.
Supostamente, agora eu deveria
indicar de maneira objetiva algo com que eu possa trabalhar. Mas não o farei.
Primeiramente, porque não estou em busca de emprego. Isso eu já tenho e, de
todos os piores cenários possíveis, eu estou no melhor deles. Eu poderia fazer
muito mais no meu trabalho, mas essa não é uma decisão minha. Em segundo lugar,
porque o objetivo da dinâmica não é conseguir emprego, mas relembrar ou
estruturar um propósito. O meu propósito eu posso fazer como professor, como
educador, como ator, como artista, como muitas coisas. E todas elas estão ligadas
à arte, à necessidade de se questionar o status
quo, de se viver a vida em todas as suas possibilidades. Eu estou longe de
ser essa pessoa. Mas saber que é ela quem quero ser me parece ser um importante
passo.