O texto abaixo foi escrito há quase quatro anos, no meu trigésimo aniversário, em 2015. Eu já fui um escritor competente.
"Hoje será um dia grande e cansativo, então resolvi escrever logo
pela manhã meu texto de aniversário (a quem interessar):
Olhar
para o céu sempre foi uma experiência sublime e aterrorizante, um
dos momentos privilegiados que me fizeram entender, desde muito cedo,
a pequenez da existência humana, resumida anos mais tarde pela
expressão camoniana “bicho da terra, vil e tão pequeno”.
Lembro-me que, quando criança, eu assistia à Didavision, a
enciclopédia digital da Tv Cultura, e entre meus episódios mais
queridos, que iam de mitologia à natureza selvagem, os temas
astronômicos eram certamente os meus favoritos. Meu interesse
astronômico me levou aos Cavaleiros do Zodíaco, os guardiões da
Saori (nome de uma das minhas companheiras caninas, que morreu há 12
anos na véspera do meu aniversário, depois de me acompanhar por
outros 8), a encarnação da Deusa Atena que habitava minhas tardes,
depois da aula. Eu ainda me lembro da primeira vez que assisti aos
Cavaleiros, meio que por acidente, e da minha ansiedade pelo início
de cada temporada, antecedida por uma exaustiva repetição de todos
os episódios de todas as temporadas anteriores (mas que eu assistia
num ritual impossível de recusar).
Entre
todos os planetas, contudo, não poderia existir um mais bonito que o
planeta enfeitado, Saturno, e me lembro que uma das dúvidas
existenciais da minha infância era “por que não existe uma Sailor
Saturno?”. Sei que depois houve, mas eu já não acompanhava a
série... Eu ficava imaginando como ela seria, quais os poderes teria
e, de alguma maneira, eu acreditava que ela seria especial, que teria
um papel fundamental na trama, caso aparecesse. Anos mais tarde me
reencontrei com Saturno, numa disciplina da faculdade, redescobrindo
sua ligação com o Deus Cronos (do qual é a versão latina), esse
canibal melancólico.
Sempre
acometido pela bile negra, eu havia me afastado, na adolescência, do
nome do meu vício, mas convivera com ele intimamente. Fui
atormentado pela melancolia, por essa sensação de uma existência
que se ensaia, mas não age, de estar adiando a vida e perdendo o
tempo, ou seja, de ser consumido por Cronos, essa “fome de vento”
que nos consagra ao nada. Mas, como aprendi com os poetas –
principalmente os portugueses que, assolados pelo fado fero, fizeram
da história a saudade daquilo que não foi – e com o filósofo
Walter Benjamin – esse saturnino personagem da minha coleção
particular –, a melancolia também possui uma dimensão
soteriológica, que se poderia exercitar na contemplação das
línguas, do ditado de amor entrelido em cada poema.
Pouco
depois, quando eu trabalhava no ensino de jovens e adultos, na
Faculdade de Educação, eu pude ver (!) Saturno, estar diante desse
demônio ambivalente. Na feira de ciências do projeto, e com a ajuda
de um grupo de divulgação e popularização científica da
faculdade de física, eu pude ver no telescópio os anéis do planeta
vaidoso e, pela primeira vez, julguei que aquela minúscula esfera
adornada (a distância que nos separe é enorme) não poderia me
fazer mal. Estava disposto a ter de Saturno apenas as qualidades, a
entender suas maledicências e a fazer dos equívocos matéria
poética, assim como fazer dessa saudade sem objeto uma reivindicação
comunitária forjada no metal das palavras. Nos últimos anos,
inclusive, acreditava haver passado de uma vida saturnina para uma
vida infantil, aquela na qual nada se perde, apenas se torna
novamente apropriável, uma “infinita infância do sentido”, para
usar uma expressão de uma professora – também portuguesa – que
me marcou profundamente.
Tudo
isso para dizer que o retorno de Saturno me parecia uma brincadeira
para a qual eu já dominava as regras. Como aquela personagem do
Trier, eu achava que a chegada do planeta Melancolia me daria, no
máximo, uma sensação de apaziguamento nunca experienciada. Não
foi bem assim. Esses últimos 12 meses foram difíceis (superados
apenas pelos meses que antecederam e sucederam a morte da Saori e da
minha avó, a Dona Nilda), estressantes, melancólicos. Fiz o mínimo,
não cumpri as tarefas, estourei os prazos. Não visitei os filhos
dos amigos que amo, não tomei minha cerveja com tantos outros. A
todos peço desculpas. Sobrevivi a esse retorno com a coragem (ou
resignação, ainda não sei) de quem se lembra, todos os dias, de
que a vida é breve, “dunas modeladas, desfeitas pelo vento”,
como diz o poeta Carlos de Oliveira.
Aos
meus amigos (de ontem, de hoje, do último minuto), aos meus
familiares (de sempre), agradeço muito o apoio, o carinho, a
confiança, a preocupação. Saturno foi-se embora e eu estou aqui.
Não sei o que vem pela frente (será algo novo, porque sinto que
encerrei mesmo uma fase da vida, ainda que haja tarefas a cumprir),
mas espero que cada um de vocês esteja lá pra eu poder compartilhar
outras vitórias. Como um bom leonino, eu apagarei o período ruim da
minha vida e direi que isso é inveja dazinimiga. Ou, talvez, com meu
talento dramático, tingirei os fatos com a cor da tragédia e direi
que superei tudo e todos. “I’ll never be hungry again!”. Talvez
seja isto o que acabei de fazer. Quem saberá?"