eu escrevo aqui para me despedir. a palavra "signo", com a qual designamos a linguagem humana, guarda com a palavra "túmulo" uma herança etimológica: sema, que designa em grego as duas coisas, o signo e o túmulo.
escrevo aqui, portanto, para me despedir, e para enterrar você. mas não porque não gosto mais de você, e, sim, porque essa despedida é o modo que tenho de continuar com o mesmo sentimento, com um gosto de nostalgia, de melancolia.
escrevo para me despedir. de você e de mim. de um certo "mim" que achou em você uma linguagem e se narrou, se constituiu. desse "mim" que nos mínimos sinais de carinho que você ofertou, nos momentos em que alimentou um sentimento já desiludido, achou fôlego para dizer "no começo era o verbo". mas você deu apenas fôlego e o verbo não se fez carne.
portanto, escrevo para me despedir. vou engolir o fôlego. vou manter minha carne fraca, trêmula. vou esperar um novo ar, um novo fôlego, uma nova possibilidade de começar.
ps.: obrigado mesmo assim. vi que meu sangue ainda corre, que o pulso ainda pulsa.
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