quinta-feira, 22 de agosto de 2013

"É verdade que são mulheres, mas não mijam."

A frase com a qual ressuscito este singelo blog - seguido por um e visto por outro - pertence à Boccaccio, e se refere à distinção feita pelo poeta entre as musas e as mulheres. Se como a doutrina bombastiana profere, a musa - ou ninfa - pertence àquela segunda geração de seres, cuja carne não é a carne humana, mas uma segunda carne - a carne das "criaturas", como são designadas por Paracelso -, por mais que se pareçam com as mulheres, são seres de outra natureza: não mijam.
A tal ninfa, por sua vez, é o designado objeto de amor para um poeta como Dante, e, para os poetas medievais, a união do intelecto individual ao intelecto possível. A ninfa, esse ser de outra carne, esse objeto transicional, que nos leva da solidão ontológica de indivíduos à graça de participar da totalidade do intelecto, é o humus, o fermento que impele ao amor, ao estudo, à ação, à morte.
Não ando buscando uma ninfa. Não ando querendo um objeto inalcançável. Não ando melancólico porque Deus me habita, mas não posso vê-lo ou tocá-lo. Não ando negando minha carne adâmica para me iludir com uma segunda gênesis que me redimiria da pequenês existencial. Eu nietzscheando, apenas preocupado em dançar para fazer fluir a imensa intensidade que me atravessa e que, às vezes - com bastante frequência em noites de lua cheia - me impele a uma angustiante sensação de tragédia (ok, isso é a melancolia, mas não porque Deus me parece inalcançável, e, sim, porque meu corpo é pequeno demais para tamanha graça). 
Mais que um objeto de amor, eu busco uma melodia.