sábado, 21 de setembro de 2013

natimorto

eu escrevo aqui para me despedir. a palavra "signo", com a qual designamos a linguagem humana, guarda com a palavra "túmulo" uma herança etimológica: sema, que designa em grego as duas coisas, o signo e o túmulo.

escrevo aqui, portanto, para me despedir, e para enterrar você. mas não porque não gosto mais de você, e, sim, porque essa despedida é o modo que tenho de continuar com o mesmo sentimento, com um gosto de nostalgia, de melancolia.

escrevo para me despedir. de você e de mim. de um certo "mim" que achou em você uma linguagem e se narrou, se constituiu. desse "mim" que nos mínimos sinais de carinho que você ofertou, nos momentos em que alimentou um sentimento já desiludido, achou fôlego para dizer "no começo era o verbo". mas você deu apenas fôlego e o verbo não se fez carne.

portanto, escrevo para me despedir. vou engolir o fôlego. vou manter minha carne fraca, trêmula. vou esperar um novo ar, um novo fôlego, uma nova possibilidade de começar.

ps.: obrigado mesmo assim. vi que meu sangue ainda corre, que o pulso ainda pulsa.

quarta-feira, 18 de setembro de 2013

erotismo

que essa vida seja uma experiência solitária, que ela seja uma constante busca por contato, uma desesperada tentativa de se encontrar (não a si mesmo, mas em si mesmo), é algo que aprendi muito cedo. talvez por não me reconhecer no nome que me deram, ou recusar o destino angelical que nele se inscrevia, minha relação com o mundo sempre foi baseada no estranhamento e, se sou bom em algo, esse algo é esquecer.

entretanto, ando mais desesperado do que nunca.

desesperado em todos os sentidos: ando tendo surtos de desesperança, de instabilidade, de vazio e de completa falta de perspectiva. mas também ando des-esperado, minha vinda não é esperada por ninguém.

quem já esteve num relacionamento (quase todo mundo esteve em uma relação, mas vejo que poucos em um relacionamento) sabe que o outro continua sendo o outro, que o mito do andrógeno não diz respeito à matéria, mas ao espírito (entenda-se o termo como puder). mas esse outro é um suporte, um sorriso que confere sentido ao dia, um olhar que esforçamos para coordenar na mesma direção ou apenas uma boca que nos promete engolir.

o outro é sempre o outro: aquele que nunca veio. aquele que já foi. aquele que surgiu como promessa, como uma imensa luz que redimiria todos os pecados e levaria os mortos para seu encontro com deus, mas que não se realizou. aquele que vaga-luma. aquele.

o outro é sempre o outro. mas eu nunca fui eu e a alteridade conforta quem nunca está em casa.

quinta-feira, 22 de agosto de 2013

"É verdade que são mulheres, mas não mijam."

A frase com a qual ressuscito este singelo blog - seguido por um e visto por outro - pertence à Boccaccio, e se refere à distinção feita pelo poeta entre as musas e as mulheres. Se como a doutrina bombastiana profere, a musa - ou ninfa - pertence àquela segunda geração de seres, cuja carne não é a carne humana, mas uma segunda carne - a carne das "criaturas", como são designadas por Paracelso -, por mais que se pareçam com as mulheres, são seres de outra natureza: não mijam.
A tal ninfa, por sua vez, é o designado objeto de amor para um poeta como Dante, e, para os poetas medievais, a união do intelecto individual ao intelecto possível. A ninfa, esse ser de outra carne, esse objeto transicional, que nos leva da solidão ontológica de indivíduos à graça de participar da totalidade do intelecto, é o humus, o fermento que impele ao amor, ao estudo, à ação, à morte.
Não ando buscando uma ninfa. Não ando querendo um objeto inalcançável. Não ando melancólico porque Deus me habita, mas não posso vê-lo ou tocá-lo. Não ando negando minha carne adâmica para me iludir com uma segunda gênesis que me redimiria da pequenês existencial. Eu nietzscheando, apenas preocupado em dançar para fazer fluir a imensa intensidade que me atravessa e que, às vezes - com bastante frequência em noites de lua cheia - me impele a uma angustiante sensação de tragédia (ok, isso é a melancolia, mas não porque Deus me parece inalcançável, e, sim, porque meu corpo é pequeno demais para tamanha graça). 
Mais que um objeto de amor, eu busco uma melodia.