domingo, 7 de fevereiro de 2010
3. Além
- Não adianta tentar me entender. Não adianta dizer três ou quatro palavras na esperança de que três ou quatro palavras possam preencher o vazio que você vai deixar. Eu me entreguei por inteiro para você. Você me conhece como ninguém jamais me conheceu. Conhece meus defeitos, minhas qualidades, minhas curvas e meus abismos. Você conhece meu gosto, você conhece meu gozo e minhas dúvidas. Por isso não pense que três ou quatro palavras serão suficientes para me acalmar numa hora dessas. O que vou fazer daqui pra frente, hein? Como vou acordar todos os dias na cama que a gente comprou juntos e que, agora, você me diz que não vai levar. Por que eu tenho que ficar com ela? Porque você quer me torturar, não é?! Você sabe que seu cheiro já está impregnado nela, que no colchão está impressa a marca do seu corpo. Você quer que eu me deite todos os dias nessa marca, não é? E os armários? O que vou fazer com um armário deste tamanho? Minhas roupas não serão suficientes para ocupá-lo. Toda vez que o abrir vou me deparar com o grande vazio que estará minha vida. O vazio desse armário, todos os dias, me lembrará que você foi embora, que metade de mim me abandonou. Assim como sua marca naquela cama, onde provavelmente irei parar todas as noites, como alguém que se atira num abismo na esperança de achar a solução. Você veio e me usou, se lambuzou, nos corrompeu, e agora vai embora e deixa nesse apartamento a única coisa que de fato foi sua nessa vida. Porque eu fui seu. Fui todo seu. Como nunca fui de ninguém. Como nunca achei que seria. E agora vem com essas palavras, que para você são capazes de me confortar, são capazes de me fazer entender o porquê está me deixando. Nenhuma palavra vai me confortar, nenhuma palavra vai me fazer entender, nenhuma palavra vai me fazer não chorar, mas por favor, por favor, diga alguma coisa.
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