domingo, 12 de maio de 2019

Achado e Perdido


O texto abaixo foi escrito há quase quatro anos, no meu trigésimo aniversário, em 2015. Eu já fui um escritor competente.

"Hoje será um dia grande e cansativo, então resolvi escrever logo pela manhã meu texto de aniversário (a quem interessar):

Olhar para o céu sempre foi uma experiência sublime e aterrorizante, um dos momentos privilegiados que me fizeram entender, desde muito cedo, a pequenez da existência humana, resumida anos mais tarde pela expressão camoniana “bicho da terra, vil e tão pequeno”. Lembro-me que, quando criança, eu assistia à Didavision, a enciclopédia digital da Tv Cultura, e entre meus episódios mais queridos, que iam de mitologia à natureza selvagem, os temas astronômicos eram certamente os meus favoritos. Meu interesse astronômico me levou aos Cavaleiros do Zodíaco, os guardiões da Saori (nome de uma das minhas companheiras caninas, que morreu há 12 anos na véspera do meu aniversário, depois de me acompanhar por outros 8), a encarnação da Deusa Atena que habitava minhas tardes, depois da aula. Eu ainda me lembro da primeira vez que assisti aos Cavaleiros, meio que por acidente, e da minha ansiedade pelo início de cada temporada, antecedida por uma exaustiva repetição de todos os episódios de todas as temporadas anteriores (mas que eu assistia num ritual impossível de recusar).
Entre todos os planetas, contudo, não poderia existir um mais bonito que o planeta enfeitado, Saturno, e me lembro que uma das dúvidas existenciais da minha infância era “por que não existe uma Sailor Saturno?”. Sei que depois houve, mas eu já não acompanhava a série... Eu ficava imaginando como ela seria, quais os poderes teria e, de alguma maneira, eu acreditava que ela seria especial, que teria um papel fundamental na trama, caso aparecesse. Anos mais tarde me reencontrei com Saturno, numa disciplina da faculdade, redescobrindo sua ligação com o Deus Cronos (do qual é a versão latina), esse canibal melancólico.
Sempre acometido pela bile negra, eu havia me afastado, na adolescência, do nome do meu vício, mas convivera com ele intimamente. Fui atormentado pela melancolia, por essa sensação de uma existência que se ensaia, mas não age, de estar adiando a vida e perdendo o tempo, ou seja, de ser consumido por Cronos, essa “fome de vento” que nos consagra ao nada. Mas, como aprendi com os poetas – principalmente os portugueses que, assolados pelo fado fero, fizeram da história a saudade daquilo que não foi – e com o filósofo Walter Benjamin – esse saturnino personagem da minha coleção particular –, a melancolia também possui uma dimensão soteriológica, que se poderia exercitar na contemplação das línguas, do ditado de amor entrelido em cada poema.
Pouco depois, quando eu trabalhava no ensino de jovens e adultos, na Faculdade de Educação, eu pude ver (!) Saturno, estar diante desse demônio ambivalente. Na feira de ciências do projeto, e com a ajuda de um grupo de divulgação e popularização científica da faculdade de física, eu pude ver no telescópio os anéis do planeta vaidoso e, pela primeira vez, julguei que aquela minúscula esfera adornada (a distância que nos separe é enorme) não poderia me fazer mal. Estava disposto a ter de Saturno apenas as qualidades, a entender suas maledicências e a fazer dos equívocos matéria poética, assim como fazer dessa saudade sem objeto uma reivindicação comunitária forjada no metal das palavras. Nos últimos anos, inclusive, acreditava haver passado de uma vida saturnina para uma vida infantil, aquela na qual nada se perde, apenas se torna novamente apropriável, uma “infinita infância do sentido”, para usar uma expressão de uma professora – também portuguesa – que me marcou profundamente.
Tudo isso para dizer que o retorno de Saturno me parecia uma brincadeira para a qual eu já dominava as regras. Como aquela personagem do Trier, eu achava que a chegada do planeta Melancolia me daria, no máximo, uma sensação de apaziguamento nunca experienciada. Não foi bem assim. Esses últimos 12 meses foram difíceis (superados apenas pelos meses que antecederam e sucederam a morte da Saori e da minha avó, a Dona Nilda), estressantes, melancólicos. Fiz o mínimo, não cumpri as tarefas, estourei os prazos. Não visitei os filhos dos amigos que amo, não tomei minha cerveja com tantos outros. A todos peço desculpas. Sobrevivi a esse retorno com a coragem (ou resignação, ainda não sei) de quem se lembra, todos os dias, de que a vida é breve, “dunas modeladas, desfeitas pelo vento”, como diz o poeta Carlos de Oliveira.
Aos meus amigos (de ontem, de hoje, do último minuto), aos meus familiares (de sempre), agradeço muito o apoio, o carinho, a confiança, a preocupação. Saturno foi-se embora e eu estou aqui. Não sei o que vem pela frente (será algo novo, porque sinto que encerrei mesmo uma fase da vida, ainda que haja tarefas a cumprir), mas espero que cada um de vocês esteja lá pra eu poder compartilhar outras vitórias. Como um bom leonino, eu apagarei o período ruim da minha vida e direi que isso é inveja dazinimiga. Ou, talvez, com meu talento dramático, tingirei os fatos com a cor da tragédia e direi que superei tudo e todos. “I’ll never be hungry again!”. Talvez seja isto o que acabei de fazer. Quem saberá?"

domingo, 31 de março de 2019

Agendas


Esse texto surgiu como necessidade de organizar minhas ideias acerca dos meus objetivos de vida. Ele resulta de algumas pesquisas que fiz na internet, sobre pessoas que ajudam outras a descobrirem seus propósitos, mais conhecidas como coaches. Como ressalva, gostaria de me afastar da ideia de que somos predestinados a propósitos, como se eles não fossem escolhas que fizéssemos, mas algo como qual nascemos. Segundo meu entendimento, eles são formas de constituição e afirmação de subjetividades, portanto, formas de vida e de resistência aos modos de produção do “eu”. Com esse texto acredito poder tocar na superfície dos meus problemas de foco e ânimo e tentar, assim, abrir alguma vereda para caminhos futuros.
Um dos vídeos a que assisti dizia que devemos nos fazer algumas perguntas para descobrirmos nossos propósitos na vida, a primeira delas sendo “quem sou eu?”. Eu não posso responder essa pergunta, nem acho que ela possua uma resposta objetiva, além daquela que se inscreve no nome próprio: Hafael. Escrevo o nome com H, grafia com a qual eu substituí o desejo familiar pela afirmação da experiência singular de estar no mundo, de “haver aí”. Realmente há alguns vídeos que admitem como resposta a essa pergunta a aparente simplicidade do nome próprio, então me sinto autorizado a respondê-la dessa forma.
A segunda pergunta dessa dinâmica é “o que você faz?”, a qual também aparece como “em quê você é bom?” ou “o que você poderia ensinar alguém agora?”. Essa pergunta, acredito eu, é muito difícil de responder. Há muitas coisas que eu poderia dizer que eu faço: eu canto, eu atuo, eu conto piadas, eu tenho um pensamento relativamente rápido. Mas focando em minhas habilidades eu diria que possuo certa descrença em tudo, um ceticismo amplo que me faz evitar termos universais, o que me torna uma pessoa relativamente crítica. Eu tenho o hábito de me perguntar pelo significado histórico das palavras, evitar essencialismos e recusar ontologias identitárias. Na faculdade, por exemplo, eu sempre me interessei mais pelas pesquisas que questionavam seus termos, sejam eles literários ou gramaticais, do que por aquelas que se resignavam a usar os conceitos como instrumentos neutros de classificação e julgamento. Foi essa perspectiva que me levou à trilogia da suspeita: Freud, Nietzsche e Marx. Também acredito que foi essa perspectiva que me fez me reconhecer tanto no pensamento de Foucault, a quem ainda devo minha habilidade de efetivamente pensar tudo e qualquer coisa, não na sua essencialidade, mas na sua historicidade. Obviamente essa não é uma reposta objetiva, do tipo “eu faço bolos incríveis”, é apenas a resposta que eu tenho pra essa pergunta. Até porque não há mesmo nada que eu faça exiguamente. A próxima pergunta, contudo, pode me ajudar a especificar essa habilidade.
A terceira pergunta indaga “pra quem eu faço o que eu faço?”. Essa foi a mais difícil de responder, mas por livre associação eu cheguei à seguinte conclusão: para os que não se enquadram. Durante toda a minha vida eu me senti alheio, deslocado, sem lugar. Quando eu descobri que outros homens tiveram essa experiência e que muitos deles, ainda assim, realizaram trabalhos significativos, eu tive acesso a uma possibilidade de me desculpar por não atender aos requisitos do sucesso indicados pela sociedade brasileira. Eu sempre admirei esses sujeitos que não comprometeram sua visão de mundo, que não fizeram concessões à economia dos corpos e desejos por meio dos quais nossa sociedade busca domesticar e docilizar o “cidadão”. Eu sempre tive inveja desses que abdicam de tudo por sua arte, por suas crenças, por seus desejos, ainda que por isso sejam considerados homens maus ou sem caráter. Eu queria ajudar a esses que não têm coragem de assumirem a sua existência infame, a sua vulgaridade, a sua completa ausência de idolatria pela sociedade contemporânea. Esses homens são fruto dessa sociedade, sua infâmia é resultado do julgamento social sobre suas vidas, sejam eles os judeus na Alemanha de Hitler, os armênios da Iugoslávia, os homossexuais, as mulheres, os negros, os índios, os refugiados. Mas também queria ajudar àqueles que, prisioneiros da mesquinharia cultural a que são submetidos, rechaçam a alteridade e se recolhem na paralisia mesmidade. Por um lado, portanto, eu queria ajudar a fender o pensamento mediano para que esses seres não sejam marginalizados pelas categorias identitárias do cidadão, do homem, do falante, do bom, belo e verdadeiro, mas eles também são o instrumento por meio do qual eu não me enclausuro em mim mesmo, mas abro minha vida e minha história ao outro. Não consigo responder “a quem” objetivamente, mas acho que é um indicativo dessa resposta.
A quarta pergunta é “o que eles precisam?”. Muito difícil de responder, uma vez que acredito que a necessidade dos infames depende dos dispositivos que os marginalizam. Grosso modo, eles precisam de alguém que os ouça, que os veja, que não naturalize seu sofrimento, que não considere que suas vidas precisem ser adequadas aos padrões sociais de aceitabilidade. Talvez haja um imenso romantismo da minha parte, mas eu não sei organizar minha vida sem esse senso de justiça, o que me fez interessar pela política e sua relação com a arte. Esse é outro tópico importante na minha trajetória: a relação com as artes. Mesmo não sendo um grande leitor ou mesmo um grande espectador de museus, teatros e outros modos de produção artística, eu sempre me conectei a esses homens que fazem da produção de sentido a única verdade inerente ao homem. Em um tempo que as categorias parecem esgarçar-se e perderem sua autoridade lógico-racional, me parece que a arte é o lugar em que a experiência sensível recoloca mais uma vez o desafio sempre necessário de sentir mais uma vez, experimentar mais uma vez, abrir-se ao mundo mais uma vez. Não há lugar em que eu tenha me sentido mais em casa e tenha estado mais ciente da minha função do que na arte-educação do Inhotim. Foi lá que eu realmente me senti em casa. Foi lá que eu consegui organizar, de maneira até então inédita pra mim, meus pensamentos.
Última pergunta: “o que eles ganham com isso?”. Responderia com uma palavra: liberdade. Obviamente “liberdade” não significa ausência de amarras – ser sujeito é, em larga medida, ser o agente e o paciente dos múltiplos dispositivos que nos constituem –, mas saber quais são as suas batalhas, reconhecer que a diversidade constitui o modo mais brilhante de se estar em sociedade, que não há vida que possa ser substituída pelas bugingangas que nos prometem a felicidade no mercado das vaidades contemporâneas.
Supostamente, agora eu deveria indicar de maneira objetiva algo com que eu possa trabalhar. Mas não o farei. Primeiramente, porque não estou em busca de emprego. Isso eu já tenho e, de todos os piores cenários possíveis, eu estou no melhor deles. Eu poderia fazer muito mais no meu trabalho, mas essa não é uma decisão minha. Em segundo lugar, porque o objetivo da dinâmica não é conseguir emprego, mas relembrar ou estruturar um propósito. O meu propósito eu posso fazer como professor, como educador, como ator, como artista, como muitas coisas. E todas elas estão ligadas à arte, à necessidade de se questionar o status quo, de se viver a vida em todas as suas possibilidades. Eu estou longe de ser essa pessoa. Mas saber que é ela quem quero ser me parece ser um importante passo.

sábado, 21 de setembro de 2013

natimorto

eu escrevo aqui para me despedir. a palavra "signo", com a qual designamos a linguagem humana, guarda com a palavra "túmulo" uma herança etimológica: sema, que designa em grego as duas coisas, o signo e o túmulo.

escrevo aqui, portanto, para me despedir, e para enterrar você. mas não porque não gosto mais de você, e, sim, porque essa despedida é o modo que tenho de continuar com o mesmo sentimento, com um gosto de nostalgia, de melancolia.

escrevo para me despedir. de você e de mim. de um certo "mim" que achou em você uma linguagem e se narrou, se constituiu. desse "mim" que nos mínimos sinais de carinho que você ofertou, nos momentos em que alimentou um sentimento já desiludido, achou fôlego para dizer "no começo era o verbo". mas você deu apenas fôlego e o verbo não se fez carne.

portanto, escrevo para me despedir. vou engolir o fôlego. vou manter minha carne fraca, trêmula. vou esperar um novo ar, um novo fôlego, uma nova possibilidade de começar.

ps.: obrigado mesmo assim. vi que meu sangue ainda corre, que o pulso ainda pulsa.

quarta-feira, 18 de setembro de 2013

erotismo

que essa vida seja uma experiência solitária, que ela seja uma constante busca por contato, uma desesperada tentativa de se encontrar (não a si mesmo, mas em si mesmo), é algo que aprendi muito cedo. talvez por não me reconhecer no nome que me deram, ou recusar o destino angelical que nele se inscrevia, minha relação com o mundo sempre foi baseada no estranhamento e, se sou bom em algo, esse algo é esquecer.

entretanto, ando mais desesperado do que nunca.

desesperado em todos os sentidos: ando tendo surtos de desesperança, de instabilidade, de vazio e de completa falta de perspectiva. mas também ando des-esperado, minha vinda não é esperada por ninguém.

quem já esteve num relacionamento (quase todo mundo esteve em uma relação, mas vejo que poucos em um relacionamento) sabe que o outro continua sendo o outro, que o mito do andrógeno não diz respeito à matéria, mas ao espírito (entenda-se o termo como puder). mas esse outro é um suporte, um sorriso que confere sentido ao dia, um olhar que esforçamos para coordenar na mesma direção ou apenas uma boca que nos promete engolir.

o outro é sempre o outro: aquele que nunca veio. aquele que já foi. aquele que surgiu como promessa, como uma imensa luz que redimiria todos os pecados e levaria os mortos para seu encontro com deus, mas que não se realizou. aquele que vaga-luma. aquele.

o outro é sempre o outro. mas eu nunca fui eu e a alteridade conforta quem nunca está em casa.

quinta-feira, 22 de agosto de 2013

"É verdade que são mulheres, mas não mijam."

A frase com a qual ressuscito este singelo blog - seguido por um e visto por outro - pertence à Boccaccio, e se refere à distinção feita pelo poeta entre as musas e as mulheres. Se como a doutrina bombastiana profere, a musa - ou ninfa - pertence àquela segunda geração de seres, cuja carne não é a carne humana, mas uma segunda carne - a carne das "criaturas", como são designadas por Paracelso -, por mais que se pareçam com as mulheres, são seres de outra natureza: não mijam.
A tal ninfa, por sua vez, é o designado objeto de amor para um poeta como Dante, e, para os poetas medievais, a união do intelecto individual ao intelecto possível. A ninfa, esse ser de outra carne, esse objeto transicional, que nos leva da solidão ontológica de indivíduos à graça de participar da totalidade do intelecto, é o humus, o fermento que impele ao amor, ao estudo, à ação, à morte.
Não ando buscando uma ninfa. Não ando querendo um objeto inalcançável. Não ando melancólico porque Deus me habita, mas não posso vê-lo ou tocá-lo. Não ando negando minha carne adâmica para me iludir com uma segunda gênesis que me redimiria da pequenês existencial. Eu nietzscheando, apenas preocupado em dançar para fazer fluir a imensa intensidade que me atravessa e que, às vezes - com bastante frequência em noites de lua cheia - me impele a uma angustiante sensação de tragédia (ok, isso é a melancolia, mas não porque Deus me parece inalcançável, e, sim, porque meu corpo é pequeno demais para tamanha graça). 
Mais que um objeto de amor, eu busco uma melodia.

segunda-feira, 2 de maio de 2011

Osama na Rio

O Brasil está mesmo na moda. Depois do sucesso do longa de animação RIO, que chegou a liderar as bilheterias mundiais nas últimas semanas; e da corte holywoodiana ter descoberto o país como cenário para seus filmes e férias, chegou a vez do homem mais procurado do mundo aportar na cidade maravilhosa. O corpo de Osama bin Laden, terrorista e líder da Al-Qaeda morto essa semana pelas tropas americanas no Paquistão, teve seu corpo lançado ao mar antes mesmo de ser fotografado ou filmado. Essa situação, porém, teria gerado suspeitas de que o líder não havia de fato sido morto e que o anúncio não passaria de mais uma estratégia americana ou de fazê-lo reaparecer ou apenas de amenizar os anseios da população sobre um possível ataque no 11 de setembro desse ano, 10 anos do ataque às torres gêmeas. Mas quem ainda estava na dúvida da veracidade do assassinato de bin Laden pode relaxar porque, ao que parece, mesmo com a crise internacional, Iemanjá ainda não está aceitando corpo de terrorista como oferenda e o "bagulho" foi devolvido nessa segunda nas praias cariocas.

Fonte: Jornal "O Globo" de 02 de maio de 2011. Pág. 37. Caderno de Turismo.

domingo, 10 de abril de 2011


Como um santo quebrado, eu hoje sou apenas resto do que já fui. Ou não. Sou o mesmo que sempre fui, vivendo na nostalgia de uma realidade nunca sequer experienciada. Ao mesmo tempo em que faço as perguntas, pergunto se as próprias perguntas são honestas ou apenas forjadas. Toda minha escrita é metalinguística e por causa disso não alcanço mais nenhuma meta. É tudo fragmento, mas não como um gênero escolhido por mim para uma escrita errante. Eu agora estou simplesmente errado.